Há algo curioso acontecendo.
Nos últimos anos, o nome de São José parece ter aparecido com uma frequência cada vez maior. Livros são publicados, grupos de oração surgem, famílias recorrem à sua intercessão e muitos católicos começam a descobrir uma figura que, para alguns, ainda parece surpreendentemente pouco conhecida.
Por isso uma pergunta surge quase naturalmente:
Será que a Igreja começou a falar de São José somente agora?
A resposta é não.
A devoção a São José possui uma história muito mais antiga. Santos de diferentes épocas reconheceram sua grandeza, falaram sobre sua missão e incentivaram os fiéis a recorrerem à sua intercessão. Entre eles estão nomes como São Bernardo de Claraval, São Bernardino de Sena, São Lourenço de Brindes e Santa Teresa de Ávila.
Então, o que está acontecendo?
Certamente a melhor maneira de compreender seja olhar para a história com um pouco mais de atenção.
A Igreja nunca deixou de olhar para São José
Os Evangelhos apresentam José de maneira discreta.
Não encontramos longos discursos. Não encontramos uma lista de ensinamentos pronunciados por ele. Encontramos, sobretudo, suas ações: ele acolhe Maria, protege Jesus, trabalha para sustentar sua família e responde às orientações de Deus.
Essa presença silenciosa parece ter marcado também a maneira como a Igreja foi desenvolvendo sua devoção.
São José nunca ocupou o centro que pertence a Cristo. Sua missão sempre foi compreendida em relação a Jesus e a Maria. Entretanto, justamente por estar tão próximo deles, sua figura foi sendo contemplada com maior profundidade ao longo dos séculos.
Santos e mestres espirituais perceberam que havia algo extraordinário naquele homem aparentemente escondido.
Um homem que recebeu de Deus uma missão única.
Um esposo chamado a guardar Maria.
Um pai chamado a cuidar de Jesus.
Um trabalhador chamado a sustentar sua família.
Um homem justo chamado a obedecer mesmo quando não compreendia completamente os caminhos de Deus.
Portanto, não estamos diante de uma devoção inventada recentemente.
Estamos diante de uma devoção que foi amadurecendo.
Quando a presença de São José começou a ganhar novo impulso?
Se existe um período que merece nossa atenção, certamente ele começa no século XIX. Foi nesse período que a presença de São José na vida da Igreja ganhou um impulso particularmente expressivo.
Um dos momentos decisivos aconteceu em 1870, quando o Papa Pio IX declarou São José Padroeiro da Igreja Universal.
Esse reconhecimento não surgiu isoladamente. Primeiramente, é preciso entender que já havia um movimento de valorização de sua figura, e novas iniciativas continuariam aparecendo nas décadas seguintes. Congregações religiosas dedicadas a São José foram fundadas. Além disso, igrejas e santuários começaram a surgir sob sua proteção. E finalmente, diversas Obras de espiritualidade passaram a divulgar mais intensamente sua devoção.
Em outras palavras, aquilo que durante séculos havia sido contemplado de maneira mais discreta começou a ganhar uma expressão cada vez mais ampla. E a Igreja continuaria avançando nessa direção.
Os papas foram colocando São José cada vez mais perto dos fiéis
A história dos últimos séculos mostra uma sucessão impressionante de iniciativas.
Em 1889, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Quamquam Pluries, dedicada à devoção a São José.
Pouco depois, em 1909, o Papa Pio X aprovou oficialmente a Ladainha de São José.
Em 1955, Pio XII instituiu a festa de São José Operário, associando sua figura de maneira ainda mais explícita à dignidade do trabalho.
Posteriomente, em 1962, São João XXIII determinou a inclusão do nome de São José no Cânon Romano, a primeira Oração Eucarística.
Décadas mais tarde, São João Paulo II dedicaria a ele a exortação apostólica Redemptoris Custos, publicada em 1989.
Já no nosso tempo, o Papa Francisco acrescentou o nome de São José às demais Orações Eucarísticas em 2013.
E, finalmente em 2020, convocou toda a Igreja para um Ano de São José, celebrado de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021, acompanhado da carta apostólica Patris Corde.
Perceba a sequência.
Não se trata de uma moda que apareceu de repente.
É um processo de crescente reconhecimento e aprofundamento.
São José também foi descoberto por muitos santos
Enquanto a Igreja ia desenvolvendo sua reflexão sobre José, muitos santos e homens e mulheres de vida espiritual também encontravam nele um poderoso modelo de vida cristã.
Santa Teresa de Ávila ocupa um lugar especialmente importante nessa história. O material que serve de base para este artigo destaca seu papel na divulgação da devoção a São José durante o século XVI.
Séculos depois, outras figuras continuariam promovendo sua devoção.
Entre elas estão o Beato Guillermo José Chaminade, São Pedro Julián Eymard, o Beato Pedro de São José e Santo André Bessette.
Este último teve papel importante na construção do que se tornaria o conhecido Oratório de São José, em Montreal, no Canadá.
Essas histórias mostram algo interessante. A devoção a José não dependeu de uma única pessoa, de uma única época ou de um único movimento. Ela foi sendo transmitida, aprofundada e vivida por diferentes gerações.
Então por que temos a impressão de que São José está sendo descoberto agora?
Aqui está talvez a parte mais interessante da questão.
A resposta não está simplesmente em dizer que “a Igreja está falando mais de São José”.
É preciso perguntar por que essa mensagem encontra tanta ressonância no nosso tempo.
E existem razões bastante profundas para isso.
Vivemos uma época na qual muitas das realidades que José viveu estão sendo novamente colocadas em discussão: família, paternidade, responsabilidade, trabalho, fidelidade, silêncio, autoridade e proteção.
José não oferece respostas através de discursos.
Mas ao contrário, ele oferece uma vida.
E talvez seja justamente por isso que sua figura tenha tanta força hoje.
Um homem para um tempo que precisa de pais
São José foi esposo. Pai. Trabalhador. Protetor.
Sua vida aconteceu dentro de uma família concreta, na qual recebeu a responsabilidade de cuidar de Maria e de Jesus.
Por isso, quando a sociedade enfrenta crises relacionadas ao casamento e à família, olhar para José deixa de ser apenas uma prática devocional.
Torna-se também uma oportunidade de contemplar novamente o significado da responsabilidade masculina, da fidelidade conjugal e da paternidade.
O material que fundamenta este artigo aponta justamente a proteção do casamento e da família como uma das razões pelas quais a devoção a São José ganha especial importância no nosso tempo.
E existe algo particularmente bonito nisso.
José não protegeu sua família fazendo grandes discursos.
Protegeu-a estando presente.
Trabalhando.
Obedecendo.
Partindo quando era necessário.
Retornando quando Deus mandava.
Permanecendo fiel.
Um homem para um mundo que precisa voltar a olhar para Jesus
Existe ainda outra dimensão.
A devoção a São José nunca termina nele.
Quando contemplamos José, encontramos inevitavelmente Maria e Jesus.
Sua missão inteira estava relacionada ao cuidado da Sagrada Família.
Por isso, aproximar-se de José não significa substituir Cristo por outro centro da vida espiritual. Significa aprender com aquele que recebeu a missão de cuidar do próprio Filho de Deus.
Essa perspectiva ajuda a compreender também a segunda razão apresentada no material que estamos utilizando: a necessidade de uma renovação da fé e da evangelização.
José aponta para Jesus.
Sua vida escondida em Nazaré aponta para Jesus.
Seu trabalho aponta para Jesus.
Sua obediência aponta para Jesus.
Sua proteção aponta para Jesus.
Até mesmo seu silêncio aponta para Jesus.
Talvez seja justamente por isso que sua presença se torne tão necessária quando o mundo se afasta das raízes cristãs.
O século XXI está descobrindo um santo antigo
Existe uma ironia bonita nessa história.
Nós não estamos descobrindo um personagem novo, mas estamos redescobrindo um homem que sempre esteve presente.
A Igreja já o venerava.
Os santos já falavam dele.
Os papas já escreveram sobre ele.
Famílias já recorriam à sua intercessão.
Igrejas já foram colocadas sob sua proteção.
E, ainda assim, para muitas pessoas, São José continua sendo quase um desconhecido.
Talvez porque ele tenha passado a maior parte de sua vida escondido.
Ou porque o silêncio seja menos chamativo do que os grandes discursos.
Talvez porque o mundo tenha se acostumado a procurar grandeza onde existe exposição.
José nos obriga a olhar para outro lugar.
Talvez não seja São José que chegou agora
Quando colocamos todos esses acontecimentos lado a lado, percebemos algo importante.
A declaração de São José como Padroeiro da Igreja Universal em 1870, a Quamquam Pluries, a aprovação da Ladainha, a instituição de São José Operário, sua inserção no Cânon Romano, a Redemptoris Custos, o Ano de São José e a Patris Corde não são acontecimentos desconectados. Eles fazem parte de uma história na qual a Igreja foi aprofundando progressivamente a compreensão e a apresentação da missão de José.
Por isso, talvez a pergunta inicial precise ser reformulada.
Não é:
“Por que a Igreja começou agora a falar de São José?”
É:
“Por que nós demoramos tanto para olhar para ele?”
A diferença parece pequena.
Mas muda tudo.
Porque José não apareceu agora.
Nós é que estamos começando a perceber aquilo que tantos cristãos já contemplaram antes de nós.
Um tempo para aprender com José
Existe uma expressão que aparece na tradição contemporânea da devoção josefina e que resume bem esse movimento:
um tempo de São José.
A ideia não significa que José tenha se tornado mais importante do que Jesus ou Maria, mas Significa reconhecer que sua figura, sua missão e seu exemplo podem oferecer uma resposta particularmente providencial às necessidades do nosso tempo.
E talvez seja isso que finalmente estamos começando a experimentar.
Um retorno à simplicidade. À família. Ao trabalho vivido com dignidade.
Um retorno ao silêncio, à responsabilidade e a proteção.
E, acima de tudo, um retorno a Jesus.
Porque é isso que encontramos quando olhamos verdadeiramente para José.
Não um homem que deseja chamar atenção para si.
Mas um homem que passou a vida inteira guardando aqueles que Deus lhe confiou.
São José não precisa ser descoberto. Precisa ser conhecido.
Certamente essa é a conclusão mais simples: São José nunca deixou de estar na história da Igreja.
Sua devoção atravessou séculos. Santos falaram dele. Papas escreveram sobre ele. Igrejas foram construídas sob seu nome. Orações foram compostas em sua honra. E, por isso, pouco a pouco, sua presença foi ganhando um lugar cada vez mais explícito na vida litúrgica e espiritual da Igreja.
Agora, porém, existe uma pergunta que cabe a cada um de nós.
O que faremos com essa redescoberta?
Podemos simplesmente conhecer mais uma história sobre um santo ou podemos começar a aprender com ele.
Podemos contemplar seu silêncio. Imitar sua obediência.
Honrar seu trabalho e também cuidar melhor de nossas famílias.
E, como ele, colocar nossa vida a serviço de Jesus.
Talvez São José não tenha chegado agora. Talvez nós é que finalmente estejamos começando a olhar para ele.
São José, rogai por nós.





